8 de março.
Minha primeira lembrança desse dia sou eu, do alto da minha terceira série, na sala de leitura da escola, tendo que recortar um coração de EVA e aprendendo a cantar Sexo Frágil, do Erasmo Carlos, em "homenagem" às mulheres. No final, cada menina de oito ou nove anos recebia uma rosa, pois em breve seríamos mulheres.
Não sei se foi o feminismo, não sei se foi a maturidade, mas hoje, quando acordei com meu irmão de seis anos me trazendo uma rosa com um sonho de valsa grudado, não vi aquela demonstração da mesma maneira que vi nove anos atrás. Essas flores são apenas uma maneira de me lembrar de como sofremos com o machismo todos os dias, e de como a sociedade acha que pode nos recompensar com flores (eu nem gosto de flores, conheço muitas mulheres que também não) e chocolates (amo chocolates, mas prefiro respeito) em um só dia. E, ainda por cima, nos chamando de "delicadas", "misteriosas", "flores". Não somos nada disso, e se formos, não somos apenas isso.
Prefiro ficar com a minha última lembrança antes da de hoje, no dia 8 de março de 2012, quando eu me interessei por certas "homenagens" de algumas empresas pela internet, extremamente desrespeitosas, no mesmo tom de algumas de 2013:
E essas são apenas um exemplo. Enfim, ao me deparar com isso, fiquei curiosa. Vi que homenagens com mulheres de lingerie incomodavam, vi que associar mulheres com coração mole e essas baboseiras, que pra mim não significavam muito na época, era ruim. E quis saber o motivo disso. Foi assim que fui procurando mais sobre feminismo, em blogs brasileiros e em tumblrs estrangeiros. E foi a partir daí que fui lutando ainda mais contra o meu slut shaming, me engajando em campanhas, lendo e me interessando por essa militância que só me fez bem, apesar dos mil pesares.
E eu prefiro ver o dia 8 de março como um dia no qual muitas mulheres e homens reafirmam o sexismo da sociedade, sim, no qual empresas têm a coragem de brincar com nosso maior horror, a violência doméstica (como aqui), mas, acima de tudo, o dia no qual encontrei a feminista em mim. E acredito que eu não seja a única. Prefiro pensar que se a cada mil pessoas que reafirmam o machismo, uma se descobre feminista, então vale um pouco a pena. Porque é pra isso que estamos aqui. Sabemos que as coisas não vão mudar muito em um mês, um ano, ou mesmo uma década. Mas a cada pessoa que entende as causas do feminismo, é uma vitória. Porque o feminismo te apresenta ao seu lugar no mundo (o lugar que você quiser). Foi assim comigo.
Feliz dia internacional da mulher, também, mas feliz todo dia para você, mulher que... se sente mulher. Porque isso é o suficiente. E saiba que estamos juntas em prol de uma sociedade igualitária e de respeito. Não nos deixemos enganar com rosas e chocolates. Ainda há mais pelo que lutar. E nós não temos medo, nem preguiça.
Débora Lima <3

